sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Cerdas urticantes

Extraído de:
http://dedalus.usp.br:4500/ALEPH/POR/USP/USP/TES/FULL/1258017

Morfologia e evolução das cerdas urticantes em Theraphosidae (Araneae).
Rogério Bertani.
São Paulo, 2002.

Resumo.

Foi realizado estudo comparativo com cerdas urticantes de aranhas da família Theraphosidae, com o objetivo de estudar a variabilidade morfológica individual, intraespecífica e interespecífica em número representativo de espécies; assim como detectar possíveis padrões de distribuição dos diferentes tipos de cerdas quanto à sua posição no abdome das aranhas. Para isso, foram examinados 188 espécimes de 59 espécies pertencentes a 42 gêneros de Theraphosidae. Ao mesmo tempo, foi realizada análise cladística com o objetivo de confrontar os resultados obtidos e formular hipóteses de evolução das cerdas urticantes. Posteriormente, os resultados foram comparados com dados biológicos sobre a utilização das cerdas urticantes.

O estudo da variação do comprimento das cerdas nos indivíduos foi realizada através da medição de cerdas retiradas de pelo menos 6 pontos diferentes do abdome de 3 espécies: Vitalius sorocabae, Grammostola acteon e Avicularia avicularia. Tanto em Vitalius sorocabae quanto em Gramostola acteon as cerdas de maior comprimento foram encontradas nas regiões média posterior do abdome. Em Avicularia avicularia as cerdas urticantes se distribuiram de forma homogênea pelo abdome. Foi detectado dimorfismo sexual quanto ao comprimento das cerdas urticantes. Machos sempre possuem cerdas significativamente mais longas do que fêmeas, independentemente da espécie ou subfamília à qual pertençam. Isto talvez se deva ao fato deles pertencerem mais tempo expostos aos predadores durante a época de acasalamento. Cerdas mais longas causam reações urticantes mais intensas, sendo mais eficientes contra predadores vertebrados do que cerdas mais curtas.

Existe grande variação morfológica nas cerdas do tipo I, III e IV.Intermediários entre os tipos I e III ou III e IV foram encontrados nos mesmos indivíduos.

O tipo I pode ser caracterizado pela presença de uma região com farpas reversas, enquanto que o tipo IV caracteriza-se por ser muito curto, fortemente curvado e possuir as farpas orientadas para o lado convexo da cerda. Algumas cerdas apresentaram modificações morfológicas especiais, constituindo apomorfias para alguns gêneros ou espécies.

Quando dois tipos morfológicos de cerdas urticantes foram encontrados no mesmo indivíduo, estes tipos estavam segregados a áreas distintas no abdome. Nesses casos, existiu pouca variação intraespecífica e grande variação interespecífica, principalmente em espécies que apresentavam cerdas dos tipos III e IV. Em algumas espécies os machos possuiam os tipos I e III e as fêmeas somente o tipo I.

Em Pachistopelma rufonigrum (Aviculariinae) também foi detectado dimorfismo sexual. As cerdas urticantes do tipo II estavam presentes em imaturos e machos adultos, porém desapareciam em fêmeas adultas. Não foi detectada variação intraespecífica significante quanto ao comprimento, tipo de cerda presente e distribuição no abdome, em adultos. Isso sugere que essas estruturas possam ser utilizadas satisfatóriamente na sistemática de Theraphosidae. É sugerido que as cerdas urticantes dos tipos I e III, as quais estão presentes em regiões distintas do abdome em muitas espécies, sejam utilizadas contra diferentes predadores. As cerdas longas do tipo III, presentes nas regiões média e média posterior do abdome, seriam utilizadas ativamente pela aranha, a qual lançaria essas cerdas através do atrito das pernas posteriores contra o abdome. Os alvos seriam predadores vertebrados. As cerdas mais curtas do tipo I, presentes nas regiões anteriores e laterais anteriores do abdome, seriam utilizadas passivamente através da incorporação em teias de muda e na parede de ootecas. Os alvos seriam predadores invertebrados, principalmente larvas de dípteros da família Phoridae. A cerda do tipo I é provavelmente uma modificação da cerda do tipo III, na qual uma região de farpas reversas teria surgido. Quando uma larva de forídeo entra em contato com uma teia de muda ou parede de ooteca na qual existam cerdas do tipo I incorporadas, a larva pode ser perfurada pela extremidade perfurante da cerda até a região compreendendo a área de farpas principais. Com isso, a região com farpas reversas fica exposta e acaba entrando em contato com fios de seda, podendo neles se fixar. Dessa forma, a cerda acaba se prendendo com uma extemidade à larva e com a outra aos fios de seda e, portanto, dificultando os movimentos da larva.

As cerdas do tipo I são retiradas do abdome pela aranha em conjunto com muitas cerdas de revestimento longas, as quais possuem uma região basal helicoidal que envolve as cerdas urticantes. Essas cerdas provavelmente auxiliam na remoção das cerdas urticantes, e na sua deposição sobre as teias de muda ou na parede das ootecas. Cerdas urticantes são homônomos das cerdas de revestimento. Ou seja, são modificações dessas estruturas múltiplas em áreas restritas do abdome. O encontro de intermediários morfológicos entre cerdas de revestimento e cerdas urticantes dos tipos II e III reforça essa hipótese. Cerdas urticantes do tipo IV podem ser apenas uma variação de cerdas do tipo III, não constituindo tipo morfológico bem definido e com função específica. Isso não impede, no entanto, sua utilização na sistemática de Theraphosidae, uma vez que está visivelmente presente em algumas espécies e ausente em outras. A análise cladística foi realizada utilizando-se três pacotes de programas cladísticos, sem a utilização de pesos, ou com a utilização de pesagens sucessiva e implícita. Os consensos estritos dos oito cladogramas obtidos foram comparados e discutidos. O cladograma melhor resolvido, com comprimento de 591 passos, índice de consistência de 0,79 e índice de retenção de 0,95 foi obtido com o programa Hennig 86 utilizando-se os algoritmos mh*, bb* e pesagem sucessiva, o qual é expresso a seguir em linguagem parentética: (Oligoxystre sp.) (Pterinochilus sp. + Ceratogyrus sp.) (Iridopelma hirsutum) (Pachistopelma rufonigrum + Avicularia avicularia + Avicularia juruensis + Avicularia versicolor) (Ephebopus murinus + Ephebopus uatuman) (Psalmopoeus sp.+Tapinauchenius sp.) (Selenocosmia sp.) (Haplopelma sp. + Poecilotheria sp.) (Stromatopelma sp.+ Heteroscodra maculata) (Hysterocrates sp. + Citharischius crawshayi) (Euathlus truculentus) (Euathlus vulpinus, Paraphysa horrida (Tmesiphantes nurbilus) (Grammostola acteon + Grammostola longimana + Grammostola rosea) (Homoeomma montanum + Homoeomma brasilianum) (Hapalopus sp. (Cyriocosmus Bertae + Cyriocosmus chicoi)(Plesiopelma insulare + Plesiopelma semiaurantiacum) ((Aphonopelma semani + Sphaerobothria hoffmani) (Phormictopus cancerides(Acanthoscurria sternalis) (Acanthoscurria atrox + Acanthoscurria rondoniae) (Eupalaestrus campestratus) (Proshapalopus anomalus + Proshapalopus multicuspidatus) (Lasiodora sp.) (Vitalius sorocabae + Vitalius wacketi + Vitalius vellutinus) (Nhandu carapoensis) (Nhandu cerradensis + Nhandu coloratovillosus) (Pamphobeteus nigricolor + Pamphobeteus antinous + Xenesthis immanis) (Brachypelma emilia + Branchypelma smithi + Branchypelma bohemei + Branchypelma Klaasi) (Theraphosa blondi + Theraphosa apophysis) (Megaphobema robustum + Megaphobema mesomelas + Sericopelma sp.). Os cladogramas obtidos para a família Theraphosidae confirmam a homologia secundária da série de transformação-cerda de revestimento / cerda tipo III e IV / cerda tipo I. Confirma ainda o aparecimento independente de cerdas urticantes nos gêneros Avicularia, Pachistopelma e Iridopelma (Aviculariinae)(Tipo II) e em Ephebopus (Aviculariinae) (tipo V). Portanto, cerdas urticantes surgiram independentemente três vezes em Theraphosidae, todas na fauna americana. Além disso, confirma que a presença de cerdas do tipo II modificadas em Avicularia versicolor, as quais podem ser lançadas ao ar e não introduzidas pelo contato, como acontece com outras espécies do gênero, é claramente uma convergência morfológica e comportamental com aranhas da subfamília Theraphosinae.

[chel.jpg]por Theraphosidae

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